Desde que entrei na escola até o fim do ensino médio, a minha melhor amiga era a Malu. Nós éramos unha e carne, mesmo tendo personalidades totalmente discrepantes: ela era a típica menina metida de colégio, enquanto eu era a coisa mais desengonçada do mundo. Nunca entendi porque a garotinha que tinha o poder de me transformar no motivo de chacota para as outras crianças me quis como amiga, ou como ela mesma dizia, "melhor amiga de todas", muito menos os outros colegas. Por anos e anos foi ela quem me defendeu das brincadeirinhas cheias de crueldade que crianças e adolescentes de classe média sabem fazer tão bem.
A Malu e eu tínhamos uma amizade muito forte, apesar de ser abalada ocasionalmente pela atitude dela. Como eu disse antes, Malu era a típica menina metida do colégio. Me defendia com unhas e dentes, mas também não hesitava em se juntar com os meninos e meninas mais populares pra dar uma zoada nos nerds, esquisitos ou bolsistas (existia esse preconceito nos colégios particulares, pelo menos na minha época). Eu sempre assistia à distância, não queria participar daquilo, mas com o tempo vi que o meu distanciamentdo da "rodinha" (era assim que ela chamava o seu grupo de amigos) a deixava chateada.
- Você nunca mais ficou na rodinha... não ri mais comigo e parece que nem gosta dos meus amigos.
- É claro que eu gosto dos seus amigos, só fico com um pouco de vergonha - menti.
- Então amanhã você vai parar de bobeira e ficar junto da gente.
No outro dia lá estava eu, meio a contra-gosto. O papo rolava animado na rodinha, eu estava até gostando, mas depois de uma meia hora todas as atenções voltaram para uma pessoa de fora. A Malu começou a apontar para a Bianca, que todos chamavam de Bibi. Bibi não era um apelido carinhoso, era uma brincadeira com o excesso de peso da menina. Eles iam até ela e apertavam sua barriga, fazendo um som de buzina. Nunca vi a menina chorar, então presumi que ela realmente não se sentia incomodada. Naquele dia, a Bibi se vestia um pouco diferente do usual. Trazia no cabelo umas presilhas de borboleta bem bonitas, além de usar uma saia rodada e um batom rosa. O grupinho da Malu decidiu que iriam, de uma vez por todas, fazer a Bibi chorar.
A gordinha era apertada por todo o corpo, mas não se movia, não expressava nada no rosto. Vendo que o alvo da sua gozação continuava apático, um dos meninos começou a arrancar as presilhas do cabelo dela. Uma por uma.
-Por favor, não quebra não, foi presente da minha vó.
Diante dos pedidos dela, o menino ria mais e mais, quebrando as borboletinhas e jogando os restos no chão. Os outros garotos perguntavam se agora ela ia chorar.
- Não - respondeu de cara amarrada.
Nesse momento, Malu e duas outras meninas borraram o batom da Bibi, e a deixaram ainda mais descabelada. Aquilo tudo começu a me causar um mal estar terrível, meu estômago começou a revirar. A escola inteira rodeava a cena, rindo da menina gordinha que se encontrava descomposta, aguentando insultos inimagináveis. Comecei a me desvencilhar dos espectadores para procurar algum inspetor que desse conta daquela injustiça quando a mão da Malu agarrou o meu pulso.
- Pra onde você vai?
Na hora me senti a pior pessoa do mundo. Estava prestes a entregar a minha "melhor amigas de todas" na mão do diretor. Ela ficaria suspensa, de castigo em casa, e nunca mais falaria comigo.
- Vem aqui Lola, agora é a sua vez.
A Malu me empurrou para o centro da roda, me deixando cara a cara com a menina descabelada.
- O que você quer que eu faça, Malu?
Ela olhou em volta, e começou a gritar "Lola! Lola! Lola!", e todos em volta começaram a gritar meu nome, e bater palmas. Eles esperavam que eu dissesse alguma coisa. Do meio daquela multidão, eu ouvia frases como "xinga ela!", "chama ela de gorda!", "bate nela!". A Malu sorria pra mim com um olhar fixo, e tudo o que eu pude fazer na hora foi virar para a Bibi e estender a mão. A menina ajeitou o cabelo e sorriu pra mim, mas simultaneamente, o sorriso da Malu começou a se desmanchar. Larguei a mão da Bibi, recuei e cruzei os braços dizendo:
- Sua baleia.
Bibi chorou, colocou as duas mãos no rosto e saiu correndo, humilhada. As crianças em volta me aplaudiam, a Malu pulava sem parar do meu lado porque finalmente,
eu tinha feito a gordinha-buzina chorar. Passei o dia inteiro colhendo os louros da minha surpreendente atuação. Fui para casa pensando que nunca mais poderia colocar os pés no colégio.
No outro dia não apareci na escola porque acordei com uma dor de garganta insuportável. À partir daquele dia, as dores na garganta tornaram-se sazonais. Desenvolvi o enorme talento de ficar doente quando sentia a iminência de situações que me provocam medo.
Voltei às aulas uma semana depois e fui recebida com muitos beijos e abraços pelos colegas da "rodinha". Quanto à Bibi, ela passou a sentar em uma das últimas carteiras da classe, e trazia no cabelo uma borboletinha só, talvez a única que tenha conseguido salvar naquele dia fatídico. Tentei me aproximar da menina várias vezes, mas ela ficou arredia, quando eu tentava uma abordagem, ela virava a cara e saía andando. Não era para menos. Eu sentia uma culpa sincera, que dilacerava o meu coração cada vez que a via. Não só por humilhá-la na frente de todos, mas por gostar da atenção que estava recebendo da Malu e dos amigos dela. Passei a freqüentar a rodinha todos dias, participando de todos os assuntos, das fofocas... e até das chacotas. Estava finalmente incluída, e na minha cabeça, estava desempenhando o meu papel de boa amiga, de um jeito ou de outro.
Ah, antes que eu esqueça, quero explicar rapidamente o porquê do meu comprometimento com a Malu naquela época. É que além de ser muito grata por ter sido acolhida por ela, me sentia no dever de protegê-la: sua mãe estava finalmente se divorciando do pai, que costumava beber e ficar muito violento. Às vezes acontecia de a minha amiga chegar na escola com uns hematomas. Nos escondíamos no parquinho para que ela pudesse chorar e conversar comigo. A pouca idade fazia com que eu ficasse chocada demais com a situação, por isso desenvolvi um senso de "responsabilidade" pela Malu que só fazia sentido na minha cabeça.
O problema era que ao mesmo tempo que me sentia uma boa amiga, me sentia um monstro. Existia o prazer de proteger a Malu e a vergonha de encarar a Bianca. No meio tempo em que não precisava lidar com as duas, me escondia em uma das salas de aula desativadas. Comecei indo para lá apenas para me esconder e pensar. Depois ia com lápis e papel, escrevia meus pensamentos para depois jogar tudo picadinho no lixo. Ficava com vergonha de guardar aquilo. Um dia tive um acesso de raiva ao rasgar o papel e me arranhei com o lápis. Vi um pouco de sangue escorrendo, e sem motivo aparente, me arranhei um pouco mais fundo. Me furar com um lápis depois de escrever virou um ritual. Eu saía da sala renovada, sem culpas, sem angústia. Mas no outro dia, o sentimento ruim estava lá, então precisava repetir a dose.
Com o passar dos anos, o lápis foi evoluindo. Na terceira série, ele virou uma tachinha. Lá pra sétima, pontinha de tesoura. No início do primeiro ano, já era um estilete bem afiado. O ciclo vicioso durou por anos a fio.
Hoje em dia não encontro muito a Malu por motivos óbvios: cada uma foi cuidar da sua própria vida. Nós crescemos, mudamos de cidade, começamos a correr atrás de propósitos paupáveis ao invés da atenção alheia. É claro que, vira e mexe, caímos de volta nos velhos hábitos: da última vez que eu a encontrei, ela falou mal de outras pessoas durante toda a conversa. Bom, quanto a mim, parece que estou muito bem, obrigada. O único problema de ter largado o estilete foi ter me apego à bebida e aos cigarros logo em seguida.
A estória da minha amizade com a Malu me voltou à memória enquanto eu saía do Laringologista com um exame na mão. Passei algumas semanas com um aperto enorme na garganta e os resultados apontaram um nódulo. Depois de adulta, minhas angústias continuavam explodindo como dores, inflamaçoes e corpos estranhos, somatizando-se em detrimento da minha saúde. Preciso amadurecer com urgência, antes que isto me mate.