segunda-feira, 7 de abril de 2008

Wild them in the end.

A gente era o tipo de casal que as pessoas gostavam de olhar. Isso acontecia porque além de ser muito bonitinhos, a gente adorava sair, beber e se divertir na companhia um do outro e ainda conseguir a proeza de ser a alma da festa. Vivemos por anos um amor amigo e bonito, mas havia muito mais naquele relacionamento do que os olhos alheios poderiam enxergar. Eu vivia eufórica, misturando medo e fascínio por aquele homem, enquanto ele, bem, até hoje eu não sei direito o que ele tava fazendo ali.

O Henrí era do tipo de pessoa que precisa de um relacionamento pra sobreviver. Quantas vezes eu não o ouvi dizer "sempre tive namorada", "odeio morar sozinho", "se não estou apaixonado minha vida não faz sentido". Construiu bases muito sólidas em todos os seus romances anteriores, porém, surpreendentemente, elas ruíram cada de maneira mais trágica que a outra. Eu, por outro lado, estava experimentando a primeira vez que sentia necessidade de me comprometer. Não, necessidade não. Era amor mesmo. Até então não acreditava muito em monogamia e comprometimento, mas depois de encontrar o Henrique tudo mudou radicalmente. Ele era a tampa da minha panela, a metade da minha laranja, o sapato velho pro meu pé cansado, todos os clichês possíveis, imagináveis e irrefutáveis. Por isso mergulhei de cabeça, mesmo ficando um pouco assustada com o histórico dele.

O que me doeu na época foi descobrir que a solidão que eu sentia dentro daquele namoro não vinha da minha cabeça, e sim do fato de ele ser uma pessoa estável, que precisava de relacionamentos estáveis e construía um clima estável para que tudo ficasse... estável. Eu falava sobre as minhas dúvidas, sobre os meus desejos e necessidades na esperança de que fosse deixá-lo à vontade pra se abrir. Era agoniante não ter resposta alguma. Por estar apaixonada também desenvolvi um romantismo que eu não sabia que existia aqui dentro. Muitas vezes deixei bilhetes pela casa, mensagens no celular, ficava atenta a tudo que ele gostava e se tivesse $, não hesitava em comprar. Ele parecia não se importar, muito menos se importar em retribuir. O desespero foi crescendo ao longo do tempo. Como não conseguia mais falar, passei a gritar. Derrepente eu tinha me transformado na tão temida Pessoa Maluca do Relacionamento. E uma vez que vc se transforma nessa pessoa, suas chances de ser levado a sério escorrem pelo ralo pra sempre. Um belo dia cansei de vê-lo abanando a cabeça com condescendência, como quem pensa "o médico mandou não contrariar". Na vez em que ele precisou viajar por 3 semanas, levei TODAS minhas coisas pra casa do Alex. Eu já estava agilizando a entrega do meu apartamento porque iria me mudar pra um maior, mas desisti e comecei a negociar um no prédio do Alê. Também troquei o número do meu celular, endereço de e-mail, apaguei qualquer vestígio online que eu pudesse ter. O Henrique não foi na casa do Alex me procurar. Também não ligou. Nenhuma vez em dois anos.

O papel de Pessoa Maluca do Relacionamento que ele me deu foi desempenhado com mais naturalidade no final de tudo. Você pode ver um filme de merda, como dizem, mas se o final for bom, o resto da trama é validada. Wild them in the end.

É por isso que eu não quero lidar com a volta do Henrique. Não é medo não, sinceramente. Carreguei tanta negligência por tanto tempo que agora sinto uma honesta preguiça de tentar consertar as coisas. Primeiro porque ele me fez acreditar por um bom tempo que a minha emoção era imaturidade (ou melhor, maluquice). Segundo, porque eu desapareci da vida dele, evaporei, e ele não se mexeu... até agora. Quando a gente era casal, ele fazia aquela solidão inofensiva que eu sempre carreguei dentro de mim virar um monstro enlouquecido. É triste pensar que uma pessoa que você ama tanto é covarde ao ponto de não assumir suas próprias fraquezas, e pior, chegar a plantar em você fraquezas que nunca estiveram ali na verdade.

Um comentário:

Lux disse...

os casais são tão iguais....