quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Escuridão

Chegamos na Shelter eram exatamente 1:39 a.m. A door grita para entrarmos e abre a corrente que separa os bem-vindos dos outros. Na fila que se formava enorme, rostos conhecidos e expressões ansiosas, de quem não quer que a onda comece a bater ainda ali. Lá dentro muito escuro, muito barulho e luzes de todas as cores piscando freneticamente. Ninguém presta atenção em ninguém, uma liberdade angustiantemente solitária. Alex grita alguma coisa pra mim mas não entendo. Minha única preocupação é achar Fred, o dealer “oficial” da Shelter. Começo a rodar tentando acostumar meus olhos à luz rubra até que o avisto parado num canto, escorado na pilastra ao lado do dj. Sem falar oi começo a dizer:

-O que você tem aí?

“O que você quiser, meu amor”, responde pegando no meu queixo.

...odeio que me chamem de “meu amor”...

- Me dá um E e um doce, e quero um baseado também.

“Porque tanta amargura, meu amor, ainda pensando naquele... como é mesmo o nome...?”

– Me dá logo essa merda e cala a boca!

Muito mais puta que antes peço uma dose de wishky e com ele mesmo dropo meu êxtase. O gosto amargo desce corroendo e sinto calor. Procuro o canto mais escuro esperar a onda bater. Pessoas vem e vão, loucos, drogados, patricinhas prostitutas, prostitutas patricinhas, michês, a fauna da noite rastejando zumbi. O mesmo olhar vazio, sempre. Vejo aquela menina... Lola! Toda vez meio curvada, como se uma dor imensa fizesse peso sobre os ombros. Com ela algum idiota gorducho. Provavelmente enchendo o saco por um minuto de atenção. Outros tantos anônimos chegando, tomando espaço na pista. Está quente mesmo ou é a bebida? De repente levo um susto com Alex pulando na minha frente. Começa a gritar palavras que não entendo por causa da música alta. Sem vontade mas em respeito a amizade apuro o ouvido e presto atenção.

“Tô te sacando. Tava com Fred, deve ter se feito ali, te conheço! Olha aqui, Mona, não é morrendo que você vai esquecer. Tomar E não vai ajudar.”

Olho bem nos olhos dele e reconheço um fio de afeto sincero ali. Penso que, talvez, esta seja a única pessoa no mundo que realmente se importe comigo. Mesmo assim, aos berros e mais amarga que nunca, grito olhando pra ele com todo o ódio que consigo juntar.

- Tem certeza que não?? Escuta bem o que vou te dizer, meu caro. Talvez não ajude mesmo, talvez eu crie um vazio ainda maior, mas quem sabe amanhã eu não tenha a benção de acordar fora deste mundo. Você sabe o quanto dói em mim? Você não sabe porque você é uma porra de uma bicha pobre, feia, semi anafabeta e não sei como, ainda é feliz! Você é uma porra de uma bicha feliz!! E já que a expert em infelicidade aqui sou eu, vou te ensinar uma coisa. A única coisa que distrai uma dor é outra dor, ainda mais assustadora e violenta. Agora não enche mais a porra do meu saco e me deixa morrer em paz!

No banheiro molho o rosto e o espelho entrega alguém triste e solitário. Eu não gostaria de ser essa pessoa... Sinto calor, as cores se misturam, derreto... O rosto sorridente dele aparece pra mim. Ele andando de bicicleta, conhecendo cada cantinho obscuro, passeando alegremente pela minha mente. Nessa época ele ainda tinha algum interesse... A sensação de bem estar artificial começa a tomar forma. Penso nele, vejo as luzes, sinto saudade do corpo, do beijo, da voz.... meus braços ficam leves, cada toque irradia criando ondas de sensações pelo resto do corpo. Ouço a música com ecos. Corro pra pista aproveitar esse momento. Porque mais uma vez você foi embora, sem aviso, sem se despedir? Eu tava te esperando... Porque mais uma vez agora, logo agora, que eu estava acreditando em nós... o quentinho dentro, o bem estar, meus poros ansiam por toque... lembro do beijo dele, sinto falta.... do cheiro, da voz, do riso... do meu lado um cara dança. Pelos olhos de felicidade percebo que está na mesma onda que eu. Nunca vi, não conheço, e quem se importa? Olho pra ele e abro um sorriso falso e mole. Na mesma hora começamos a nos beijar loucamente. Não é esse homem que eu quero, não era ali que eu gostaria de estar. Preferia a cama quentinha com ele... Mas a dor da ausência é tão forte, tão aterrorizante... a solidão mais forte e mais poderosa que o mar... O que você prefere, voar ou respirar embaixo d’água?

Faz muito tempo, nas aulas de auto piedade que minha mãe me deu, aprendi: para curar uma ferida exposta, que ainda dói, só abrindo outra... Me entrego aos beijos da boca desconhecida, mesmo sabendo que, quando a onda acabar, o vazio será ainda mais devastador.

Her Majesty's a pretty nice girl,
but she doesn't have a lot to say
Her Majesty's a pretty nice girl
but she changes from day to day

De bunda no chão, sua majestade é uma menina bem legal.

Comecei a ficar beatlemaníaca por causa do meu pai. Quando eu tinha uns 10 anos, ele me apresentou o Please Please Me. Quando eu ouvi I Saw Her Standing There, pensei que estava ouvindo a canção mais genial de todos os tempos. Fiquei uma semana ouvindo SÓ esse track, pra depois ouvir o resto do álbum. A doença besoura foi me pegando devagar. Teve uma época em que eu tinha que falar todos os títulos de músicas de um álbum a minha escolha no decorrer de um dia. Precisava encaixar os títulos dentro de respostas ou perguntas plausíveis. Não sei porquê meu pai curtiu muito a idéia, e sempre duvidava que eu conseguiria terminar o que me propunha a fazer. Mas hoje em dia, parando pra pensar, vejo que ele facilitava o meu lado. Aposto que ele era louco pra jogar também, mas não queria se passar por fã chato de Beatles (qualquer tipo de fã é chato, não há como escapar, mas enfim).

Na maioria das vezes, eu escolhia o Abbey Road, apesar de o meu álbum favorito ser o Rubber Soul. Acho que era por conta dos nomes mais interessantes, mais difíceis de encaixar. Traduzindo pro português ficava meio nonsense, mas eu me divertia sozinha. Então o dia começava mais ou menos assim:

- Bom dia, Lola!
- Bom dia, mãe! Lá vem o Sol, o Sol Rei!

- Porque não arruma o seu quarto?
- Porque sim.

- CadÊ a sua gata?
- Ela entrou pela janela do banheiro.

- Arrume o quarto agora!
- Tudo bem, Sua Majestade!

E assim ia meu dia, sendo irritantemente fã de Beatles. Um dia eu já tinha encaixado quase todas as músicas, até Polythene Pam e Golden Slumbers! Ficou esquisito, a empregada achou que eu estivesse xingando, mas encaixou tá encaixado! Faltava apenas uma, portanto não poderia perder nenhuma oportunidade. No momento, minha mãe brigava comigo sem parar, e o pai estava preso no escritório fazendo sei lá o que ele fazia.

- Olha aqui menina, eu tô cansada de ver esses papéis largados pelo seu quarto, esses cds desorganizados, e não quero NUNCA MAIS encontrar anotações na parede! Não adianta falar que é de lápis e que vai sair, NAO QUERO E PONTO FINAL, ouviu bem? Esta semana você vai ficar sem papel, e vou confiscar os cds tb! Por que será que você não faz nada direito nunca?

- Porque você nunca me dá o seu dinheiro.

Nunca vi uma mulher ficar tão furiosa. Ela levantou a mão pra me bater, mas não conseguiu. Foi correndo pro escritório do meu pai, falar a sandice que ela acabou de ouvir da boca daquele projeto de gente. Fiquei olhando da frestinha da porta.

- ... é porque você não ouviu o absurdo que ela disse, Luis! "Você nunca me dá seu dinheiro!" Pequena desse jeito e já gananciosa! Será que eu não ensinei direito o valor do dinheiro pra essa criança? Será que eu tenho que me transformar naquelas mães que fazem todas as vontades do filho para ter respeito? - Blá, blá, blá, minha mãe adorava fazer uma tragédia grega com as minhas brincadeiras.

Meu pai me viu em pé ali, acenava com a cabeça para a minha mãe, mas deu um sorrisinho de lado e piscou pra mim. Eu havia ganhado, encaixado todas as músicas e AINDA POR CIMA irritado minha mãe! Ele tranqüilizou a mulher com meia dúzia de palavras e voltou a fazer o que estava fazendo.

Lembrei disso tudo enquanto descia as escadas do meu prédio, ouvindo o Abbey Road depois de muito tempo. É difícil lembrar da família neste ponto da vida, mas totalmente necessário. Naquele momento percebi que preciso entender em qual parte da minha estória perdi minha essência. Sem ajuda psicológica, sem remédios, sem álcool. Sei que a minha criança desafiadora e bagunceira está solta em algum lugar aqui dentro, tentando achar pistas do passado em algumas canções dos Beatles.

Imbuída naquele momento de reflexão perdi muito tempo andando devagar, já estava atrasada pro trabalho. Ok, você me pergunta porque eu não peguei o elevador. Gestão de calorias, ué! Só que descer e subir 15 andares todos os dias exige uma gestão de TEMPO. Comecei a correr, e nesse meio tempo o Abbey Road rodou para o início, Come Together voltou a tocar. Empolgada, apertei o passo e iniciei uma mini-corrida escada abaixo, quando pisei nos meus cadarços e caí quicando. De bunda no chão.

Tem coisa mais patética do que cair sentada? Estava ali sozinha, na escadaria do prédio, e foda-se, comecei a chorar mesmo. Quer regressão melhor do que essa? Me senti uma criança de novo. Levantei depois de alguns instantes, com uma mão enxugava a lágrima, com a outra segurava a bunda.

Será que eu preciso voltar pra terapia?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Violently Happy


Things that should not be; breath; inside is full of colors;believe me;inhale;breath; change bad thoughts for good friends;seek and destroy; every time i scratch my nails down someone elses back i hope you feel it;shoot of heroin, end of the world; conker your fear;feeling happy as never before;love, love, love, love for everyone, love each other;never give up; kill your idols;i am my own Lord;you can not hurt me, not anymore;storm;silent alarm;i have a rainbow in my cheast;
isn't it ironic;clueless people;need some space, need air; back off;love me;cats and dogs;cocorosie;tatoos;love my friends. HAPPINESS!!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Petite Machine



I could sink to the bottom of you
with a stone on a chain
without breathing in
I could tell you and tell you again
that there is only one
though many have been

lie down
fall in
pass out
while I'm wide awake
with the lights out
you're in safe hands
of that one man
who can fix his petite machine

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Afogamento ( falta de ar)

Eu me espremo no canto da cama porque parece ser o único lugar seguro. E as luzes permanecem apagadas. O escuro protege. A realidade é tão dolorosas que meus demônios tem a forma de mãe. Tampo os ouvidos pra não ouvir o som que vem do outro quarto. Aquela que deveria cuidar, causa dor. A solidão talhada a faca por toda a alma. Aquela que deveria proteger, causa dor... Àlgumas pessoas simplesmente não deveria ser permitido criar vidas. A culpa não é dela, mas foi assim que acreditou por toda a vida. Agora as consequencias se fazem ver, e até os anjos cobram um preço. Muitas vezes se ouviu rezar baixinho, e da voz ainda fraca, se escutou um pedido de morte, não atendido.

Quanto sofrimento poderia ter sido evitado. A solidão é tão grande que um grande buraco dentro do coração não se preenche e a mínima ausência é logo compreendida como falta de amor. Quanto sofrimento seria evitado, se ela, que deveria proteger, não tivesse sido tão egoísta, tão inconsequente, tão predatória em seu amor. Amor sufocante, intenso, castrador, dolorido, humilhante. Amor que destrói. Ensina a criança que amor dói, e o adulto em que se transformou não aprendeu ainda a se livrar das amarras e procura sempre e em vão, dentro de um labirinto, a saída para as bobagens que aprendeu.

A ausência é a mesma coisa que falta do amor? Ou é ele, em sua mais pura materialização?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Lembrete (continue respirando).

todo sofrimento será recompensado.
nenhuma dor é em vão.

destruir e reconstruir é a base da sobrevivência humana. começar do zero, com mais uma camada daquela capa de proteção que nos deram no início da vida, tão fina. tudo eclode com o propósito de renascer. a existência é um constante processo de demolição. cabe a nós não nos perdermos no maquinário do rolo compressor.

esse maquinário, casa da sabotagem.
e quem não gosta de se sentir em casa?

devo ter corrido dias inteiros. agora que descanso, sinto meu sangue congelar.deve ser o que chamam de hiperventilação.

eu chamo de medo.

cada quebra de ciclo leva consigo um pedaço de gente.
mas todo sofrimento será recompensado.

é como quando um aleijado ainda sente a perna que perdeu um dia. amadurecer não consiste exatamente em superar a falta dessa perna, mas conviver com a sensação de que ela ainda está lá. é tudo uma questão de fazer as pazes com os espectros e seguir em frente com a vida real.

(fantasmas existem e sempre vão existir, não importa o que digam).

mas nenhuma dor é em vão. o ciclo que se quebra, porém nunca se fecha. ele se renova, tudo converge para que novos desafios mantenham a essência humana em atividade. é por isso que eu, e você, ainda respiramos.

domingo, 13 de janeiro de 2008

melpomene.mp3

You broke the code

Just like i'm sure you always do

Without intentions, but I know

That's how I broke away from you

Now that the clouds are obsolete

I hope you landed on your feet

without those evil demons

keeping you reminding of the war

they pulled us through

as fragile hearts

ran short of glue

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

em meio ao caos, uns suspiros por alguém...

Nem consigo nem pensar, tão pensante passei o dia. Cérebro-locomotiva a 230 km por hora, mais solicitações do que eu gostaria de atender, mais emails do que gostaria de ler, muitas coisas pra organizar, computador ligado muito mais horas do que eu posso suportar, mas... as contas no fim do mês saltam freneticamente, exigentes e sem escrúpulos. E aí respiro fundo, porque ser independente não é fácil não.

E no meio disso tudo, não me faltam pensamentos em você.

Eu sei, este deveria ser um texto mais romântico, mas fazer o quê, é no meio do tumulto que encontro tempo de suspirar uns minutos, e lembrar que um certo reencontro aconteceu meio que por acaso, e a gente se pergunta: será o destino? Pouco me importa se foram os anjos, os deuses astronautas ou nós, que nos atraímos num imã de pensamentos frequentes. O que eu sei é que te vi passando, e meu coração pulou, e desde então vivo numa esteira rolante de sentimentos imperfeitos, e lindos. E faz muito tempo que procurava me encaixar assim, e tentava em vão me fazer entender, e fazer entender minha visão de relacionamento pouco usual e confesso, ideal difícil de se alcançado, mas quem disse que eu quero o que é fácil?!

Eu não quero o óbvio, nem o fácil, nem o seguro, nem o mais aceito. Eu quero o que me faz sentir viva, me desafia, me faz aprender com os tropeços e risadas. Eu quero o que é ideal pra MIM, não pro mundo. Eu quero rir por qualquer besteira. Trocar argumentações sem fim depois de um corte de cabelo desatrado e morrer de rir porque o que se discute não tem o menor cabimento. Eu quero chorar intensamente quando estiver triste. E falar com os olhos e ser entendida, e não precisar me prolongar muito em nenhuma explicação, porque algumas palavras já servem pra você sacar. Eu quero falar por horas e horas e horas e não perceber que o dia amanheceu, e ficar na janela olhando pro nada até o cigarro que eu não fumo acabar. Eu quero que joguem bolinha pro meu cachorro, e tenha o cuidado de deixar um sonzinho tocando enquanto eu estiver dormindo em outra cama.

Eu quero ele que me faz sentir a vontade como nunca antes senti. Ele, que eu não canso de olhar e achar tão lindo e incrivelmente sexy!

Eu não quero a pasmaceira de um relacionamento sem brigas, eu quero isso assim, do jeito que a gente conseguiu agora. Uma onda de sentimentos bons, e a esperança que existe algo que, pode nem durar pra sempre e provavelmente não vai ( a gente nem merece isso, imagina como é tedioso o "pra sempre?")mas com certeza vai deixar algo de bom, um brinquedo cujo manual é limitado à dois.Único no universo, único que já existiu.

Eu me sinto muito feliz, muito mais do que era antes!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Cicatrizante

Entrei no consultório da Drª Carla Regina Albuquerque um tanto constrangida. Treinei bastante ser toda simpática e descolada meia hora antes, mas na hora em que dei de cara com ela, encolhi os ombros. A mulher usava um batom vermelho meio borrado no canto da boca. Tinha uma mancha de batom na barra da saia branca. Os cabelos negros e encaracolados estavam presos em um coque meio bagunçado, sem contar que os óculos de armação vermelha estavam meio tortos. Então era essa maluca que ia consertar minha cabeça? Preferi espantar o pensamento e dar uma chance, quem sabe ela tivesse sido agredida por algum paciente bipolar?

- Boa tarde, Lola!

- Boa tarde, você é um tanto desajustada! Como vai? - eu disse em pensamento.

- Boa tarde, Drª Regina. - disse na verdade.

- Por favor, fique à vontade, estique-se aí mesmo no divã.

Sentei na pontinha mesmo. Sabe-se lá quem deitou naquele divã.

A doutora começou com as perguntas de praxe: como é a sua vida em família, e o emprego, e o namorado, e a infância, foi feliz?, etc. Em alguns minutos ela chegou à conclusão que qualquer um chegaria com as duas mãos nas costas: "você carrega culpa e abandono da infância, por isso, costuma estabelecer uma rígida ordem em tudo, até nos sentimentos, para sentir que tem um terreno seguro no qual possa se segurar. Também precisa trabalhar sua dificuldade em confiar nas pessoas."

- Não sou tão rígida assim, que absurdo! - falei em pensamento.

- Aahm.. - falei na verdade.

Então pra testar a terapeuta, resolvi jogar na roda um problema de verdade mesmo. Eu estava lá ora essa, havia pago a consulta, por mais que estivesse achando a mulher meio monga, não poderia desperdiçar a chance de adquirir esclarecimentos vindos de um ponto de vista completamente novo.

Afinal de contas, sou uma pessoa flexível e, acima de tudo, livre de preconceitos!

Ela irrompeu:

- O medo leva você a testar suas amizades pois tem medo de, vamos dizer, "quebrar a cara".

Como assim, agora ela resolveu me chamar de manipuladora-control-freak? Logo eu?

Enfim, ela tomou ar e resolvi checar se era realmente uma boa terapeuta. Sem preconceito nenhum, é claro, estava apenas checando. Não há mal nenhum nisso.

- Doutora Regina, queria tirar uma dúvida muito importante à respeito de uma coisa que eu sinto, antes que o nosso tempo acabe - inclinei para frente, desafiando-a.

- Pois não, estamos aqui para isso mesmo.

Foi aí que me dei conta de que o teste exigia que eu abrisse uma ferida que ainda doía. Ai, que arrependimento! Odeio falar sobre esses sentimentos mofados, começo a tagarelar como uma menina de 15 anos. A adolescente tatibitate que mora aqui dentro é quem sabe falar sobre essas coisas.

- Sabe, tem um cara. Ele me trocou por outra, né? Só que ele me procura. Aí tal. Aí eu fico nervosa, sabe? Mas não gosto dele. Queria que ele me deixasse em paz, porque eu gosto de outro melhor. Quando outro aparece me sinto bem. QUando esse cara aparece, eu fico com umas dores de cabeça. E tal.

Não falei? Não consigo desabafar sem me sentir uma criança acuada! O pior de tudo é que a Drª reparou o meu nervosismo. Droga.

- Já entendi, pode ficar tranqüila, não precisa se prolongar. Por ter lidado com seus sentimentos de maneira metódica ao longo de todos esses anos, você não consegue entender porque diabos está atraída por uma pessoa que não lhe faz bem. A solução para isso é muito simples: aceite a paranóia! Aceite que nem tudo pode ser tão certinho. Você tem medo de ceder, mas isso é normal! Se continuar sendo tão severa assim com as suas fraquezas, transformará a sua existência em um verdadeiro inferno! E não precisa ficar tão nervosa ao desabafar, viu? Estou aqui ao seu favor, e não contra você.

- Ela me chamou de paranóica, ela me chamou de paranóica, ela me chamou de paranóica. - disse em pensamento, cheia de raiva.

O relógio marca 16:45. Aliviada, agradeci pela consulta e caminhei em direção à porta. Estava certa de que não voltaria mais, existem coisas que precisam morrer dentro da gente, não vale a pena ficar remoendo lembranças dinossáuricas. Quando estava quase fechando a porta, Drª Carla Regina perguntou:

- Lola, porque não tenta dizer mais o que pensa? Não adianta apenas apontar os seus problemas. Você precisa destrinchá-los junto comigo!

Meio entre os dentes, acabei dizendo o que pensava:

- Se a essa altura do campeonato não consegui virar a página, doutora, não vale a pena ler o resto do livro.

Sobre estar por cima da carne seca

Vou te falar sobre unas cositas que eu aprendi desde que me mudei pra essa cidade: se você não é adotado por um grupo MUITO rápido, você não sobrevive. Tudo bem, essa afirmação é muito dramática, deixe-me explicar. Dá pra sobreviver sim, se você, assim como eu, não é do tipo de pessoa que precisa da aprovação alheia. Então, cheguei aqui e me arrumei fácil porque tenho dentro de mim uma coisa "boa praça" de ser: "bom dia, e aí tudo bem", "nossa, seu cabelo tá bonito hoje!", "tá precisando de alguma coisa?", enfim, as pessoas são muito carentes, amam ser elogiadas, amparadas, lembradas... aí fica fácil demais.

O problema é que toda a minha "boa pracice" explodiu na minha cara, sabe? O primeiro grupo de amigos que arranjei quando cheguei aqui não durou nem 6 meses. Fui descartada porque comecei a fazer amizade com uma menina que eles julgavam insuportável. Aqui as coisas funcionam assim, grupo de amizade é como um casamento. Você se compromete a conviver naquele meio, participar das fofocas e virar a cara pras pessoas certas.


Mandei todo mundo tomar no cu.


Mentira, falei que eles eram mente fechada demais. Ridículo, né? Deveria ter mandado pra puta que pariu mesmo. Sempre que fico com muita raiva, penso nas barbaridades mais cabeludas pra dizer, mas na hora sai uma coisa meio pseudo-educada-querendo-sair-por-cima-da-carne-seca. Dependendo da situação, não digo nada e saio correndo pra chorar em algum lugar. Ridículo, ridículo...


Sorte minha que o Alex sempre fica do meu lado quando eu preciso. Mesmo depois do mal-estar da semana passada. Vou contar, nós fomos pra uma boate, bebemos horrores e eu acabei soltando que espiei sua carteira de identidade e vi o seu antigo cabelo headbanger, da época em que ele tirava onda de metaleiro hetero do mal. Todo mundo riu, até ele, mas quando resolvi revelar que o bafão do século era que o verdadeiro nome do Alex é Alesmaildo, nossa... O Alex me lançou aquele olhar cortante meio de lado que, se tivesse uma legenda, diria "sua vadiazinha de merda, te pego lá fora". Mas nenhum climão entre o Alex e eu dura mais do que alguns minutos, no outro dia já estávamos felizes e contentes fazendo compras no shopping.


Retomando o raciocínio, a beesha me deu uns conselhos fora de série quando cheguei chateada da faculdade dizendo que não tinha mais amigos.


- Olha aqui meu bem, você quer que tudo seja muito perfeitinho na sua vida. Não é todo mundo que vai te achar uma fofurinha gracinha, tá, vai se acostumando com isso. Ao longo da vida você tem que lidar com até 5 pessoas que te odeiem pra amadurecer. PELO MENOS! Se hoje em dia eu sou bem colocada é porque já fui muito detestada, por isso que eu sempre digo...

- Pelo amor de Deus, não diz que...

- “Sua inveja é o combustível do meu sucesso!”

- Pára, isso é bordão de bicha chineleira!

- *risos* Falando sério baby, você precisa de um choque de realidade. Respira fundo, vamo lá. Se ninguém disse isso pra você até hoje, vou fazer esse favor.

Alex levanta, coloca uma mão na cintura e com a outra aponta o dedo na minha cara. Sua expressão muda rapidamente de “bicha melhor amiga” pra “trava que vai dar o golpe da gilete”.

- De boazinha você não tem nada não, viu?!!! Você é muito esperta, porque fica perto dessas pessoas que julga serem mais carentes do que você porque no fundo se sente sozinha e não tem coragem de admitir!!! Vamo tirar essa coroa de rainha da cocada preta da cabeça, vamo?!!!

Alex ajeita o cabelo, suspira, senta no sofá e acende um cigarro. Tranqüilíssimo, satisfeitíssimo consigo mesmo.

Aí eu levantei e mandei o Alex tomar no cu! Perguntei quem ele pensava que era, peguei minha bolsa, chutei a porta e mandei ele tomar no cu de novo! Falei que o cabelo dele tava uó também!

Mentira, claro que não, comecei a chorar pra caralho e contar todos os meus traumas de infância, minhas decepções amorosas, os meus bloqueios, blá blá blá, drama, drama, drama. Ridículo, cara.. que palhaçada. Mas ele estava certo.

- Olha, assim que você parar de arranjar desculpas pra si mesma, tudo vai ficar bem. Você tem uma vida nova agora, a vida independente que você sempre quis não é mesmo? Então, aproveita, desencana!

É, finalmente eu tenho minha vida nova, não sei porque fico criando tantas barreiras. Acho que foi porque saí da casa da minha Tia chutando o balde, pela primeira vez na vida eu mandei alguém tomar no cu, chutei a porta, disse tudo o que estava entalado na minha garganta há anos. Só faltou dizer que o cabelo dela era uó. O cabelo dela era cafona. Depois de sair do jugo da tia opressora, não sei porque diabos eu fiquei com medo das pessoas. Porque diabos eu passei a engolir sapo. Dona Joana era uma mistura de Baby Jane com Capitão Nascimento, sabe. Se qualquer dia desses eu reaparecer em casa e flagrar a Tia tomando chá de magma do inferno com Hugo Chávez não vou ficar nem um pouco surpresa.

O que tento criar na minha cabeça é um sentimento de ordem, de auto-controle e controle das situações. Tudo tem que estar perfeito para que eu esteja em paz. Só que é impossível estar em paz porque nada é perfeito.Certo? E quanto mais eu quiser ajeitar as coisas, pior minha situação vai ficar. Não é? Porque a idéia de paz é hiperbólica, e tenho a plena consciência de que, se por alguma falha na ordem natural dos acontecimentos de todas as coisas do mundo eu conseguisse alcançar a tal da hipérbole, minha vida não teria mais sentido algum. Preciso resolver essa mania de bater de frente com os meus sentimentos para manter a ordem, porque tenho medo de que quando a ordem chegar com toda a sua “paz”, eu pire por não saber lidar com o silêncio. Como se vive no silêncio? Como se cria? Como se ama? Fico nesse dilema, ansiando por uma coisa que eu sei que nunca vou alcançar, mas mesmo assim, tendo medo de alcançá-la.

Blá, blá, blá, drama, crise existencial.

- Não precisa dizer mais nada minha querida, aqui, toma o cartãozinho dessa terapeuta. Uma grande amiga minha que se consulta com ela esqueceu aqui. Acredite em mim, a mulher faz milagres.

Aceitei, resignada. Dei um beijo no Alex e enquanto me dirigia à porta, perguntei qual amigona vai nessa tal terapeuta... a Ana, a Betinha, a Amanda ou aquela Lux..?

- A Lux.

Saí pensando em que espécie de Milagre a Dra Carla Regina Albuquerque poderia ter feito pela Lux, porque sinceramente, a garota é a personificação de um train wreck. Sabe pessoa que precisa da aprovação dos outros mas faz de tudo pra chocar? Então, é ela mesma. Ainda bem que não sou assim. Até pensei em largar o cartãozinho de lado, mas só porque a terapia não funcionou com a Lux não quer dizer que não vá funcionar pra mim. Botei meu ego dentro do bolso, fazer o que? A situação dentro da minha cabeça de vento estava a beira do desesperador.