há muitas noites tenho chegado em casa depois das 4 da manhã. passar noites fora e bebendo com os amigos tem ajudado minha cabeça a parar de rodar um pouco. não queria que fosse desse jeito, sabe, eu poderia muito bem retomar velhos hábitos saudáveis, como correr na beira da praia ouvindo música, mas a preguiça sentou bem em cima da minha corcunda e não quer sair.
a semana tinha sido agitada, e uma das minhas companhias de bebedeira tem sido um grande amigo que terminou um relacionamento recentemente. depois de muito desabafar comigo ele decidiu que o namoro estava desgastado, que não conseguia mais sentir a empolgação que sentia no início do romance com o cara... problema típico de quem decide se comprometer jovem demais. Enfim.
a angústia do meu amigo vem me fazendo um pouco mal, não só porque eu o amo e fico compadecida, mas porque parei pra pensar e vi que as pessoas próximas a mim sempre tomam decisões drásticas depois de ouvir os meus conselhos. tudo bem, não serei ególatra ao ponto de dizer que tenho o poder de influenciar mentes confragidas por romances à beira do fracasso, porém não pude deixar de perceber que sempre sou eu quem dá o empurrãozinho
final em todos que me procuram. ajudar alguém a chegar que vc gosta a chegar
à uma conclusão que leve embora o peso da angústia é legal, por isso acaba sendo eu quem dá o
wake up call porque sou o tipo de pessoa que se desvencilha fácil das situações
que fazem mal. não porque sou forte, madura e tenho muito amor pela minha pessoa, é óbvio que não. é que na verdade, lá no fundo da minha cabeça mora uma pequena mania
de grandeza. me desvencilho pra depois afirmar pra mim mesma "viu o que eu posso fazer?". No fundo, no fundo, tenho medo de dinamitar as bases, sofro, quero ligar, quero implorar, quero tentar consertar. mas o medo é tão gigante que procuro outra situação fudida, pra depois sair
vitoriosa. Destruo com medo de destruir e sou viciada nisso.
Na noite de ontem meu amigo agradeceu pela força e disse que estaria aqui pro que eu precisasse. agradeci, mas me senti uma farsa. mesmo sabendo que poderia contar com ele, não revelei nada sobre essas minhocas que vem passeando pelos meus pensamentos. ele estava se sentindo bem, então preferi deixá-lo como estava. por enquanto é melhor que ele não saiba que esta pessoa que é tida como "sensata" e "conselheira" deixa sua própria vida à míngua.
numa boa, se existe algum vilão de estória em quadrinhos que usa os seus poderes pro bem, pode crer que ele foi inspirado em mim. (opa, desculpa, quem acabou de afirmar isso foi a minha mania de grandeza).
fiquei acordada até às 8 da manhã, mesmo depois de ter bebido bastante whisky e ter fumado um maço de cigarros inteiro. Tomei um banho pra me recompor porque às nove tinha um encontro marcado com a Dra Psicóloga. não estava nem um pouco a fim de voltar, mas acontece que fui em dois Doutores Gastro com as minhas famosas dores de estômago e eles recomendaram um tratamento psicoterapeutico urgente. pra um deles eu meio que cheguei a implorar por outro remédio, então o doutor gastro número dois falou "tudo bem", rabiscou o prontuário, dobrou e colocou no meu bolso: "só abre quando chegar lá fora, ok?", e deu um sorrisinho. Quando abri, li que o nome do remédio era "vai cuidar desta cabecinha. Você é jovem demais para viver tão estressada".
então sentei no divãzinho e baixei a guarda para a doutora psicóloga. Ela disse:
- hmm. dinamitar as bases. bloqueios. auto-sabotagem... olha minha querida, se confiar em mim,
poderei ajudá-la a acabar com esse vandalismo sentimental em pouco tempo.
de super vilã fui rebaixada a vândala. nossa, agora sim é que eu vou precisar de muito tratamento.
- você acha que pode se comprometer em vir aqui uma vez por semana?
- sim, sim.
- você não vai mais desmarcar 5 consultas seguidas com a mesma desculpa?
- não, claro que não.
- nem me deixar esperando por outras 5 sem desculpa nenhuma?
- não, que é isso...
- então bem vinda à bordo. sua vida não precisa mais ser um inferno... e nem seu hálito cheirar a whisky. Aqui, toma essa balinha.
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