quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Jingle Bells.


Então, é Natal ... (ao fundo, toca aquela música breguíssima na voz de Simone), mas pra mim é quase impossível conseguir entrar nesse clima. Eu entrava por causa dos meus primos, sobrinhos e irmão pequenos, mas agora que eles estão longe, não faz mais diferença. As melhores lembranças que eu tenho da infância aconteceram no Natal, e eu tenho certeza de que consegui dar um pouquinho disso pra eles. Pelo menos fiz alguma coisa que preste antes de sair de casa.

Minhas festas de fim de ano não são as mesmas desde que o meu irmão mais velho pulou da janela do quarto. A gente morava no 9º andar. Apartamento 905. O Pequeno sempre foi uma pessoa muito tímida, mas sempre muito receptivo, companheiro. Tinha poucos amigos, mas bons, e várias fãs, já que sua beleza e seu 1m90 de altura sempre chamaram atenção. O "pequeno", além de ser uma brincadeira com a altura do Eduardo, também é o nosso sobrenome. Enfim.

O Dudu não pulou da janela no Natal, mas o aniversário dele é no dia 25. MInha mãe sempre contava que ele não a deixou terminar a ceia, nem brincar de amigo oculto, e acabou chegando ao mundo exatamente à meia noite. Por isso o Natal era tão especial pra minha família. A gente cantava parabéns pro Du, trocava presentes, bebia muito vinho e ficava acordado papeando até amanhecer.

Os Natais que seguiram a morte do Eduardo foram um desastre. À meia noite, minha mãe desabou a chorar, e o meu pai, depois de beber além da conta, começou a xingar todo mundo, principalmente Deus; chutou o presépio e terminou vomitando debaixo da mesa. O do outro ano foi inexistente, meus tios ficaram traumatizados com o comportamento dos meus pais e enviaram os presentes pelo correio. Ninguém soube lidar direito com a mãe e o pai. Souberam muito bem dar as condolências no enterro, aparecer por lá vestindo preto, usando óculos escuros, fazendo cena. Na hora do vamos ver, de dar o ombro pra chorar mesmo, ninguém teve coragem. Quando o estado emocional dos meus pais entrou na fase mais deplorável, os parentes não conseguiram repetir com êxito a representação que fizeram no funeral do meu irmão. Tem gente que é assim mesmo: quando dá de cara com uma pessoa com uma história de vida mais trágica que a dela, acabam se acovardando, se encolhendo. O que é o drama senão um apelo desesperado por atenção? Tem gente que não gosta de dividir os holofotes. Não passam de um bando de figurantes.

Adivinha quem segurou as pontas e aguentou a merda toda?Bom, meu irmão caçula tinha 8 anos na época, precisei dar conta de todos os compromissos do hermanito porque minha mãe se entupia de calmantes e dormia. Meu pai se entupia de calmantes, whisky e dormia. O Martin e eu vivíamos em uma casa de zumbis. Meus pais ficavam sedados não só por causa do Dudu, mas pra não lidar comigo. Acontece que eu tive uma briga com o mano no dia em que ele se jogou. Tudo bem, não foi uma BRIGA de verdade. Meu mousepad com descanso pro pulso sumiu, e eu sabia que ele sempre tomava emprestado sem pedir. Insisti pra ele me devolver. Ele disse que tinha perdido. Eu não acreditei. Só isso. A mãe achava que o Eduardo estava passando por algum problema sério e não queria nos contar, e o fato de eu ter brigado com ele trouxe sua angústia à tona.
- Não estou dizendo que a culpa é sua, minha filha... mas infelizmente o que você fez, mesmo sem querer, levou o seu irmão a se jogar. Vamos aprender a conviver com isso, de uma vez por todas? - e engolia outro comprimido.

Conclusão: não gosto do Natal porque me lembra o dia em que matei o meu irmão por causa de um mousepad. Pelo menos não era um mousepad qualquer, não é mesmo? Era um com descanso pro pulso. Eu tenho tendinite, sabe? Mas não deveria ter agido de maneira tão egoísta com uma pessoa que estava passando por problemas. Não, claro que não! Deveria ter puxado O Du num canto e perguntado: "irmãozinho, você roubou um objeto meu porque está passando por problemas? Porque não me conta? Vamos conversar!". Palhaçada! Não tenho remorso algum. Quando chega o Natal, fico com raiva das coisas que passei por causa dessa bigorna de culpa que colocaram nas minhas costas. Tenho ódio do meu irmão, que sempre foi o queridinho da família e deixou claro que eu sou a ovelha negra até na hora de morrer.

O pior de tudo é que depois de um tempo, tirando a poeira do armário do Pequeno, achei o maldito mousepad escondido no fundo da gaveta de cuecas. Que filho da puta...

Lola.

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