segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A Voz

A ligação aconteceu no meio da noite, depois de muito trabalho, entre copos de wishky e drinqs coloridos. As risadas corriam fáceis. Era uma bebedeira entre amigas. Ninguém mais existia. Éramos só nós,completas. O celular vibrava desesperadamente dentro da bolsa. Pela terceira vez.
“Oi, sou eu, Fulano”. Quase sem pensar respondo: “Prossiga querido, conheço a sua voz”.
(No fundo, a gargalhada de uma doida que sonha com o castelo de caras.)
“Minha mãe disse que vc está com a minha mesa” ouvi a voz dizer com um ano de atraso. Por pouco não solto um arroto.

“A sua mesa?! Olha, a MINHA mesa está instalada na minha sala. Não sei do que vc está falando”.
Nisso as amigas já prestavam atenção no desenrolar da conversa, mais ainda no absurdo da ligação. Faziam caras e expressões difíceis de decodificar. Mas a bebida altera a sensibilidade, eu entendi os gestos cúmplices...
Se esse telefonema acontecesse 6 meses antes, ficaria feliz da vida, mas naquele momento eu estava rindo de um jeito gostoso, num tipo de alegria contagiante que só acontece depois de muito choro e alguns momentos de solidão. E quando vc finalmente se descobre abrigada pela sua família escolhida. Quem foi criado por Lobos, entende.
“ Eu comprei essa mesa!” gritou a voz.
“Que eu me lembre, a gente comprou juntos. E nada disso importa. Tenho muito o que fazer. Um beijo, tchau”.
Decodificando: " Não mantenha nenhuma esperança de arranjar uma briga comigo. Esse capítulo já foi!"

E pensar que um dia eu vivi essa vida com todos os meus poros... duas salas, quartos de sobra, casa de sobra. Uma cozinha com um sofá azul dentro. Era pra conversar enquanto o outro cozinhava entre taças de vinho e alguns baseados. Muita filosofia e idéias mirabolantes.Lembranças de viagens pelo mundo espalhadas. Muitas lembranças... Cachorro e gatos substituindo os filhos que um dia chegariam. Daqui a pouco, ainda temos muitos lugares pra visitar. E muito o que se divertir! Uns produtinhos pra alimentar a mente inquieta. Loucuras... Éramos invencíveis! Os melhores, os imbatíveis, os que tinham o controle sobre tudo e influenciavam muitos. O casal super - herói. Que se entendiam pelo olhar, que se deitavam na rede e ficavam num silêncio confortável.E não precisavam de mais ninguém. Que não tinham hora pra acordar. Dormiam até as três e pegavam praia no final de tarde. E viviam numa espécie de filme, onde wishkys e champagnes nunca faltam. Nem a balinha na mesa de cabeceira, esperando a hora certa de ser tomada. Era a vida perfeita.
Talvez perfeita demais. Talvez intensa demais. Talvez triste demais. Pra onde ir depois que se chega no auge??

Desliguei o telefone sem remorso nem dor. Lembrei que um dia, no meio de uma tarde deitada na grama verde e burguesa do meu jardim, pensei: “meu deus, mas o que é que eu ainda estou fazendo aqui??”



LUX

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