Entrei no consultório da Drª Carla Regina Albuquerque um tanto constrangida. Treinei bastante ser toda simpática e descolada meia hora antes, mas na hora em que dei de cara com ela, encolhi os ombros. A mulher usava um batom vermelho meio borrado no canto da boca. Tinha uma mancha de batom na barra da saia branca. Os cabelos negros e encaracolados estavam presos em um coque meio bagunçado, sem contar que os óculos de armação vermelha estavam meio tortos. Então era essa maluca que ia consertar minha cabeça? Preferi espantar o pensamento e dar uma chance, quem sabe ela tivesse sido agredida por algum paciente bipolar?
- Boa tarde, Lola!
- Boa tarde, você é um tanto desajustada! Como vai? - eu disse em pensamento.
- Boa tarde, Drª Regina. - disse na verdade.
- Por favor, fique à vontade, estique-se aí mesmo no divã.
Sentei na pontinha mesmo. Sabe-se lá quem deitou naquele divã.
A doutora começou com as perguntas de praxe: como é a sua vida em família, e o emprego, e o namorado, e a infância, foi feliz?, etc. Em alguns minutos ela chegou à conclusão que qualquer um chegaria com as duas mãos nas costas: "você carrega culpa e abandono da infância, por isso, costuma estabelecer uma rígida ordem em tudo, até nos sentimentos, para sentir que tem um terreno seguro no qual possa se segurar. Também precisa trabalhar sua dificuldade em confiar nas pessoas."
- Não sou tão rígida assim, que absurdo! - falei em pensamento.
- Aahm.. - falei na verdade.
Então pra testar a terapeuta, resolvi jogar na roda um problema de verdade mesmo. Eu estava lá ora essa, havia pago a consulta, por mais que estivesse achando a mulher meio monga, não poderia desperdiçar a chance de adquirir esclarecimentos vindos de um ponto de vista completamente novo.
Afinal de contas, sou uma pessoa flexível e, acima de tudo, livre de preconceitos!
Ela irrompeu:
- O medo leva você a testar suas amizades pois tem medo de, vamos dizer, "quebrar a cara".
Como assim, agora ela resolveu me chamar de manipuladora-control-freak? Logo eu?
Enfim, ela tomou ar e resolvi checar se era realmente uma boa terapeuta. Sem preconceito nenhum, é claro, estava apenas checando. Não há mal nenhum nisso.
- Doutora Regina, queria tirar uma dúvida muito importante à respeito de uma coisa que eu sinto, antes que o nosso tempo acabe - inclinei para frente, desafiando-a.
- Pois não, estamos aqui para isso mesmo.
Foi aí que me dei conta de que o teste exigia que eu abrisse uma ferida que ainda doía. Ai, que arrependimento! Odeio falar sobre esses sentimentos mofados, começo a tagarelar como uma menina de 15 anos. A adolescente tatibitate que mora aqui dentro é quem sabe falar sobre essas coisas.
- Sabe, tem um cara. Ele me trocou por outra, né? Só que ele me procura. Aí tal. Aí eu fico nervosa, sabe? Mas não gosto dele. Queria que ele me deixasse em paz, porque eu gosto de outro melhor. Quando outro aparece me sinto bem. QUando esse cara aparece, eu fico com umas dores de cabeça. E tal.
Não falei? Não consigo desabafar sem me sentir uma criança acuada! O pior de tudo é que a Drª reparou o meu nervosismo. Droga.
- Já entendi, pode ficar tranqüila, não precisa se prolongar. Por ter lidado com seus sentimentos de maneira metódica ao longo de todos esses anos, você não consegue entender porque diabos está atraída por uma pessoa que não lhe faz bem. A solução para isso é muito simples: aceite a paranóia! Aceite que nem tudo pode ser tão certinho. Você tem medo de ceder, mas isso é normal! Se continuar sendo tão severa assim com as suas fraquezas, transformará a sua existência em um verdadeiro inferno! E não precisa ficar tão nervosa ao desabafar, viu? Estou aqui ao seu favor, e não contra você.
- Ela me chamou de paranóica, ela me chamou de paranóica, ela me chamou de paranóica. - disse em pensamento, cheia de raiva.
O relógio marca 16:45. Aliviada, agradeci pela consulta e caminhei em direção à porta. Estava certa de que não voltaria mais, existem coisas que precisam morrer dentro da gente, não vale a pena ficar remoendo lembranças dinossáuricas. Quando estava quase fechando a porta, Drª Carla Regina perguntou:
- Lola, porque não tenta dizer mais o que pensa? Não adianta apenas apontar os seus problemas. Você precisa destrinchá-los junto comigo!
Meio entre os dentes, acabei dizendo o que pensava:
- Se a essa altura do campeonato não consegui virar a página, doutora, não vale a pena ler o resto do livro.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
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