quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

De bunda no chão, sua majestade é uma menina bem legal.

Comecei a ficar beatlemaníaca por causa do meu pai. Quando eu tinha uns 10 anos, ele me apresentou o Please Please Me. Quando eu ouvi I Saw Her Standing There, pensei que estava ouvindo a canção mais genial de todos os tempos. Fiquei uma semana ouvindo SÓ esse track, pra depois ouvir o resto do álbum. A doença besoura foi me pegando devagar. Teve uma época em que eu tinha que falar todos os títulos de músicas de um álbum a minha escolha no decorrer de um dia. Precisava encaixar os títulos dentro de respostas ou perguntas plausíveis. Não sei porquê meu pai curtiu muito a idéia, e sempre duvidava que eu conseguiria terminar o que me propunha a fazer. Mas hoje em dia, parando pra pensar, vejo que ele facilitava o meu lado. Aposto que ele era louco pra jogar também, mas não queria se passar por fã chato de Beatles (qualquer tipo de fã é chato, não há como escapar, mas enfim).

Na maioria das vezes, eu escolhia o Abbey Road, apesar de o meu álbum favorito ser o Rubber Soul. Acho que era por conta dos nomes mais interessantes, mais difíceis de encaixar. Traduzindo pro português ficava meio nonsense, mas eu me divertia sozinha. Então o dia começava mais ou menos assim:

- Bom dia, Lola!
- Bom dia, mãe! Lá vem o Sol, o Sol Rei!

- Porque não arruma o seu quarto?
- Porque sim.

- CadÊ a sua gata?
- Ela entrou pela janela do banheiro.

- Arrume o quarto agora!
- Tudo bem, Sua Majestade!

E assim ia meu dia, sendo irritantemente fã de Beatles. Um dia eu já tinha encaixado quase todas as músicas, até Polythene Pam e Golden Slumbers! Ficou esquisito, a empregada achou que eu estivesse xingando, mas encaixou tá encaixado! Faltava apenas uma, portanto não poderia perder nenhuma oportunidade. No momento, minha mãe brigava comigo sem parar, e o pai estava preso no escritório fazendo sei lá o que ele fazia.

- Olha aqui menina, eu tô cansada de ver esses papéis largados pelo seu quarto, esses cds desorganizados, e não quero NUNCA MAIS encontrar anotações na parede! Não adianta falar que é de lápis e que vai sair, NAO QUERO E PONTO FINAL, ouviu bem? Esta semana você vai ficar sem papel, e vou confiscar os cds tb! Por que será que você não faz nada direito nunca?

- Porque você nunca me dá o seu dinheiro.

Nunca vi uma mulher ficar tão furiosa. Ela levantou a mão pra me bater, mas não conseguiu. Foi correndo pro escritório do meu pai, falar a sandice que ela acabou de ouvir da boca daquele projeto de gente. Fiquei olhando da frestinha da porta.

- ... é porque você não ouviu o absurdo que ela disse, Luis! "Você nunca me dá seu dinheiro!" Pequena desse jeito e já gananciosa! Será que eu não ensinei direito o valor do dinheiro pra essa criança? Será que eu tenho que me transformar naquelas mães que fazem todas as vontades do filho para ter respeito? - Blá, blá, blá, minha mãe adorava fazer uma tragédia grega com as minhas brincadeiras.

Meu pai me viu em pé ali, acenava com a cabeça para a minha mãe, mas deu um sorrisinho de lado e piscou pra mim. Eu havia ganhado, encaixado todas as músicas e AINDA POR CIMA irritado minha mãe! Ele tranqüilizou a mulher com meia dúzia de palavras e voltou a fazer o que estava fazendo.

Lembrei disso tudo enquanto descia as escadas do meu prédio, ouvindo o Abbey Road depois de muito tempo. É difícil lembrar da família neste ponto da vida, mas totalmente necessário. Naquele momento percebi que preciso entender em qual parte da minha estória perdi minha essência. Sem ajuda psicológica, sem remédios, sem álcool. Sei que a minha criança desafiadora e bagunceira está solta em algum lugar aqui dentro, tentando achar pistas do passado em algumas canções dos Beatles.

Imbuída naquele momento de reflexão perdi muito tempo andando devagar, já estava atrasada pro trabalho. Ok, você me pergunta porque eu não peguei o elevador. Gestão de calorias, ué! Só que descer e subir 15 andares todos os dias exige uma gestão de TEMPO. Comecei a correr, e nesse meio tempo o Abbey Road rodou para o início, Come Together voltou a tocar. Empolgada, apertei o passo e iniciei uma mini-corrida escada abaixo, quando pisei nos meus cadarços e caí quicando. De bunda no chão.

Tem coisa mais patética do que cair sentada? Estava ali sozinha, na escadaria do prédio, e foda-se, comecei a chorar mesmo. Quer regressão melhor do que essa? Me senti uma criança de novo. Levantei depois de alguns instantes, com uma mão enxugava a lágrima, com a outra segurava a bunda.

Será que eu preciso voltar pra terapia?

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