quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Escuridão

Chegamos na Shelter eram exatamente 1:39 a.m. A door grita para entrarmos e abre a corrente que separa os bem-vindos dos outros. Na fila que se formava enorme, rostos conhecidos e expressões ansiosas, de quem não quer que a onda comece a bater ainda ali. Lá dentro muito escuro, muito barulho e luzes de todas as cores piscando freneticamente. Ninguém presta atenção em ninguém, uma liberdade angustiantemente solitária. Alex grita alguma coisa pra mim mas não entendo. Minha única preocupação é achar Fred, o dealer “oficial” da Shelter. Começo a rodar tentando acostumar meus olhos à luz rubra até que o avisto parado num canto, escorado na pilastra ao lado do dj. Sem falar oi começo a dizer:

-O que você tem aí?

“O que você quiser, meu amor”, responde pegando no meu queixo.

...odeio que me chamem de “meu amor”...

- Me dá um E e um doce, e quero um baseado também.

“Porque tanta amargura, meu amor, ainda pensando naquele... como é mesmo o nome...?”

– Me dá logo essa merda e cala a boca!

Muito mais puta que antes peço uma dose de wishky e com ele mesmo dropo meu êxtase. O gosto amargo desce corroendo e sinto calor. Procuro o canto mais escuro esperar a onda bater. Pessoas vem e vão, loucos, drogados, patricinhas prostitutas, prostitutas patricinhas, michês, a fauna da noite rastejando zumbi. O mesmo olhar vazio, sempre. Vejo aquela menina... Lola! Toda vez meio curvada, como se uma dor imensa fizesse peso sobre os ombros. Com ela algum idiota gorducho. Provavelmente enchendo o saco por um minuto de atenção. Outros tantos anônimos chegando, tomando espaço na pista. Está quente mesmo ou é a bebida? De repente levo um susto com Alex pulando na minha frente. Começa a gritar palavras que não entendo por causa da música alta. Sem vontade mas em respeito a amizade apuro o ouvido e presto atenção.

“Tô te sacando. Tava com Fred, deve ter se feito ali, te conheço! Olha aqui, Mona, não é morrendo que você vai esquecer. Tomar E não vai ajudar.”

Olho bem nos olhos dele e reconheço um fio de afeto sincero ali. Penso que, talvez, esta seja a única pessoa no mundo que realmente se importe comigo. Mesmo assim, aos berros e mais amarga que nunca, grito olhando pra ele com todo o ódio que consigo juntar.

- Tem certeza que não?? Escuta bem o que vou te dizer, meu caro. Talvez não ajude mesmo, talvez eu crie um vazio ainda maior, mas quem sabe amanhã eu não tenha a benção de acordar fora deste mundo. Você sabe o quanto dói em mim? Você não sabe porque você é uma porra de uma bicha pobre, feia, semi anafabeta e não sei como, ainda é feliz! Você é uma porra de uma bicha feliz!! E já que a expert em infelicidade aqui sou eu, vou te ensinar uma coisa. A única coisa que distrai uma dor é outra dor, ainda mais assustadora e violenta. Agora não enche mais a porra do meu saco e me deixa morrer em paz!

No banheiro molho o rosto e o espelho entrega alguém triste e solitário. Eu não gostaria de ser essa pessoa... Sinto calor, as cores se misturam, derreto... O rosto sorridente dele aparece pra mim. Ele andando de bicicleta, conhecendo cada cantinho obscuro, passeando alegremente pela minha mente. Nessa época ele ainda tinha algum interesse... A sensação de bem estar artificial começa a tomar forma. Penso nele, vejo as luzes, sinto saudade do corpo, do beijo, da voz.... meus braços ficam leves, cada toque irradia criando ondas de sensações pelo resto do corpo. Ouço a música com ecos. Corro pra pista aproveitar esse momento. Porque mais uma vez você foi embora, sem aviso, sem se despedir? Eu tava te esperando... Porque mais uma vez agora, logo agora, que eu estava acreditando em nós... o quentinho dentro, o bem estar, meus poros ansiam por toque... lembro do beijo dele, sinto falta.... do cheiro, da voz, do riso... do meu lado um cara dança. Pelos olhos de felicidade percebo que está na mesma onda que eu. Nunca vi, não conheço, e quem se importa? Olho pra ele e abro um sorriso falso e mole. Na mesma hora começamos a nos beijar loucamente. Não é esse homem que eu quero, não era ali que eu gostaria de estar. Preferia a cama quentinha com ele... Mas a dor da ausência é tão forte, tão aterrorizante... a solidão mais forte e mais poderosa que o mar... O que você prefere, voar ou respirar embaixo d’água?

Faz muito tempo, nas aulas de auto piedade que minha mãe me deu, aprendi: para curar uma ferida exposta, que ainda dói, só abrindo outra... Me entrego aos beijos da boca desconhecida, mesmo sabendo que, quando a onda acabar, o vazio será ainda mais devastador.

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