sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Me tira daqui

Hoje a tarde recebi uma mensagem do Alex que pedia carinhosamente para que eu tirasse a bunda do sofá e fosse encontrar com ele na Shelter, porra! Quase mandei um "deixa pra próxima", mas parei pra pensar e vi que estava realmente precisando fazer alguma socialização. Lá pelas 10 da noite já estava me arrumando, escolhi um modelito escuro, um sapatinho vermelho pra cortar o clima sombrio e pouca maquiagem. As onze já estava pronta, fui até a cozinha e tomei o que sobrou do black label com gelo. Antes de sair pra esses lugares barulhentos gosto de beber alguma coisa, pra entrar no clima antes o clima me esmague. Chegar sóbria em boate pra mim é esquisito porque me sinto intimidada por tantos rostos conhecidos, gente gesticulando, rindo e dançando sem parar. E é justamente a sobriedade misturada com a fobia social que me faz encher a cara como se não houvesse amanhã. Prefiro me privar desse tipo de vexame praticando uma alcoolização responsável, no conforto do lar.

Chegando na Shelter respirei fundo e botei a cara simpática. Um minutinho de prosa com o segurança, mais um com a door, mais um com o dealer e já estava dentro do boate, sem enfrentar fila. Imagino que quem me vê na Shelter deve achar que eu sou drogada até o cu, porque sempre fico meio grudada com o Fred, dealer oficial do recinto. Mas na real nunca tive curiosidade. Juro, cara! Já vi amigos usando de tudo, já me ofereceram de tudo, mas nunca tive vontade de experimentar. Fiquei amiga do dealer porque ele me ajudou numa vez que tomei o porre mais bizarro da minha vida. Ele foi um doce, pagou meu taxi... desde então nos falamos sempre que vou na Shelter, trocamos pequenas confidências, dores de cotovelo.. e o mais legal de tudo: ele nunca ofereceu a mercadoria dele depois de saber que eu tenho asco à esse tipo de coisa. Reconheço que ele é um porco tratando as outras mulheres, mas por mim ele tem um carinho bacana. Não sei o porquê. Tenho uma tendência forte a atrair pessoas assim, totalmente problemáticas, que se abrem comigo por um motivo que eu nunca vou saber.

O Fred deu uma pausa no nosso papo quando a Lux chegou. Como sempre, né, porque a menina é a melhor das clientes, e ainda acho que ele tem uma quedinha por ela, sabe? Ele vive falando que tá afinzão, que tá paradão numa muLezinha que não tá nem aí pra ele, mas nunca revela a porra do nome. Enfim, o dealer me deixou meio que plantada ali, logo em seguida chegou um gordinho dizendo que conhecia o fulana, que era amiga de beltrana, que conhecia o Alex, e já tinha ouvido muito falar de mim e mais um monte de coisas. O gordinho se chamava Marcos. Não, Márcio. Marcelo. Ah, foda-se. Ele me alugou por uns 20 minutos, disse que eu era uma pessoa muito bacana e pediu meu e-mail pra gente combinar de sair. Nossa, como odeio gente que se faz de íntimo! Pra escapar da situação chata fingi que estava zonza, coloquei a culpa na bebida (estava bebendo uma coca-cola pura, detalhe) e fui ao "banheiro". Antes disso ele enfiou um papelzinho na minha mão, que coloquei no bolso sem dar muita bola.

Já estava começando a considerar ir embora daquela pocilga quando encontrei o Alex. Fiquei feliz em vê-lo e tudo mais, só que ele tava chapado pra caralho. Droga, era disso mesmo que eu tava precisando, uma pessoa desvairada falando sem parar. Coloquei a mão no peito do Alê, ele estava com o coração a mil: K e Anfetaminas. Na noite, o meu amigo virava um zumbi elétrico. Aquilo me deixou um tanto deprimida.

- Olha Alê, numa boa, acho que vou nessa.

- Mas a noite tá só começando, deixa esse inferno astral pra lá!

- Ah não tá dando, tô pra baixo, quero só dormir agarrada com o meu travesseiro. Não devia ter saído de casa hoje..

- Tá, tá, vai logo antes que essa zica me contamine!

Eu tava bastante a fim de bater um papo com o Alex, ele sempre me distrai, mas no estado em que ele se encontrava não dava mesmo. Me dirigindo à saída, dei de cara com a Lux pendurada na boca de um carinha que peguei há um tempinho atrás. Ele é lindo, maravilhoso, perfeito... debaixo da luz da boate. E com certeza tudo o que a Lux tinha tomado até o momento deve ter ajudado a deixar o rapaz bastante atraente. Amanhecer ao lado dele é garantia de decepção. Coyote Ugly total.

Entrei no primeiro taxi que vi e me joguei na poltrona. Enquanto o motorista fazia a volta, eu contava as luzinhas da Shelter e tentava identificar alguns dos rostos que também resolveram sair mais cedo de lá. Não arranjo nada melhor pra fazer com o meu cérebro, começo a reparar nas placas dos carros à frente, nos bibelôs do motorista, no tamanho do salto das putas da Avenida Atlântica. Pus a mão no bolso à procura do meu maço de cigarros e junto dele estava o papel que o gordinho Márcio/Marcos/Marcelo me deu enquanto estava na boate. Era o número de telefone do meu ex namorado.

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