"Você dá importância demais aos vultos do seu passado!". Aí está a última fala da nossa última discussão. Diante do abandono que senti ao ouvir essa afirmação tão categórica, virei as costas e me dirigi à porta da rua. Se tal afirmação acompanhasse uma voz mais suave, compreensiva, embebida em um conselho valioso ou até mesmo uma tentativa de conselho, tudo seria diferente. Mas não. Ela veio seca, sentenciosa, lacônica. Será que ele não tem mais nada a dizer?
Mal sabe o dono dela que os vultos vêm como vão, são incontroláveis. Cá estão eles quando nem espero. Aliás, isso também acontece com as boas recordações, os compromissos esquecidos e o nome daquele ator que fez aquele filme... as lembranças nos pegam no meio do dia, e nunca saberemos o porquê dessas aparições serem tão inusitadas! Bom, quando cheguei em casa não tinha muito o que fazer com a minha cabeça a não ser não pensar nas reminiscências, então comecei a folhear os livros que estavam jogados na mesa antes que os meus olhos começassem a arder. Só que o nervosismo não me permitiu concentrar na leitura, então li orelhas, dedicatórias, algumas muito bonitas, melhor não me emocionar, pára tudo! Procurei o dicionário, que alívio ler palavras soltas, não quero atribuir nenhuma citação sequer ao que estou passando agora. Consegui me distrair. Minto. Parecia que eu havia conseguido. Porque os vultos já estavam de volta, e foi o raio do dicionário que começou a dar vazão ao meu drama. Achei mais justificativa para os meus sofrimentos. Descubro então que a palavra "vulto" não quer dizer apenas figura mal definida, também significa importância, interesse, notabilidade.
Os vultos do meu passado são notáveis figuras indistintas. Vou deixar de dar importância porque são indecifráveis?
Aponto o verbete e digo pra mim mesma que "agora meus motivos são mais do que plausíveis!". A minha gana de entender coisas que incomodam me deixam solitária, mas nunca fui de varrer a sujeira pra baixo do tapete. Só tento consertar o que me aflige, entender o máximo do que puder de tudo isso para viver bem. E ele continuava observando tudo da superfície, muito seguro de si, e principalmente, seguro de mim. Será que ele não se pergunta...?
Quantas vezes ele não me machucou com um punhado de palavras soltas que julgava inofensivas e elucidativas. Ele deve se achar um dicionário.
Tudo isso veio à tona no momento em que abri o papelzinho, aquele que o gordinho Marcelo/Marcos ou sei lá o quê me deu na boate. O telefone era dele, a caligrafia característica e péssima, tudo aquilo parecia ter ficado em negrito. Trazendo todas as lembranças, todos os vultos.
No rádio ouvia-se um daqueles programas da madrugada para o qual os ouvintes ligavam para dedicar uma música a alguém e toda aquela palhaçada. O taxista aumentou o volume:
You know it ain't easy
For these thoughts here to leave me
There's no words to describe it
In French or in English
Well, diamonds they fade
And flowers they bloom
And I'm telling you
These feelings won't go away
They've been knockin' me sideways
They've been knockin' me out lately
Whenever you come around me
These feelings won't go away
They've been knockin' me sideways
I keep thinking in a moment that
Time will take them away
But these feelings won't go away
É, ele está de volta. Acho que vou ligar.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
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