No domingo de manhã acordei com aquela dor de cabeça e o estomago em chamas. A garrafa de whisky do lado da cama estava vazia, eu usava a mesma roupa da noite de ontem, e o papelzinho com o número dele estava amassado, ao lado do meu telefone. Não lembro de ter ligado. Espero não ter falado nenhuma merda. Comecei a me levantar e organizar os pensamentos quando o Alex me chamou pelo interfone. Mandei subir. Estava tão desnorteada que nem liguei pra zoada que ele deu no meu cabelo, assim que entrou.
- Parece a Elza Soares ruiva!
Ressaca misturada com dor de cotovelo me deixa realmente zen. Filei um cigarro e o Alex começou a fazer small talk. Tipo, sempre que precisa me pedir alguma coisa, ele dá uma volta tremenda pra chegar ao ponto. Começou falando do meu cabelo, depois do tempo, depois do cara que ele pegou ontem, depois do sonho que ele teve...
- Nossa, eu tive um sonho muito louco, você não imagina! Eu estava de pé em uma calçada, fantasiado pro carnaval! Muito louco isso, porque você sabe que eu detesto carnaval. De um lado da calçada era Paris, do outro era o Rio de Janeiro! Saí correndo louco pra Paris arrancando fora o raio da fantasia, mas um mendigo louco me enrolou numa rede e me jogou na Sapucaí! Então aconteceu o seguinte...
Cada vez que ele falava "louco", assumia um tom de voz agudo que alfinetava meu cérebro ressacado.
Pronto, acabou meu zen. Comecei a ficar meio irritada, mas ele tinha cigarro, então me deixei enrolar um pouquinho mais. Até que finalmente...
- Lolita, vou fazer uma festinha lá em casa hoje à noite, será que você poderia me dar uma ajudinha?
- Ai, mas agora? Acabei de acordar cara..
- Não, agora não, vai se recuperando aí, toma um banhozinho, a gente marca um 10 aqui e vai lá pra casa.
- Tá, tá., tudo bem... será que eu posso saber o motivo da festinha?
- Ah, to a fim de badalar, e também tem uma amiga fazendo aniversário, então junta tudo...
- Beleza.
Nem quis saber quem tava fazendo aniversário, quem ia na festa, nada. Tomei banho, dei uma golada num café, coloquei meus óculos escuros e fui pra casa do Alex. Limpamos o lugar, tiramos os móveis, organizamos a trilha sonora, gelamos os bebes, arrumamos uns comes. O Alê sabia que o evento dele não sairia sem mim, porque porra, ele é enrolado demais. Com tudo pronto, falei que precisava voltar em casa pra tomar outro banho e colocar uma roupa mais apropriada. Ele disse "esteja de volta às 10".
Quando coloquei o dedo na campainha eram exatamente uma e cinco da manhã. Pontualidade nunca foi meu forte. Esperei um pouquinho antes de tocar. Ainda bem que hesitei, porque a porta estava apenas encostada. A música já estava rolando e ouvia-se muita conversa, risos e gritinhos. A festa já estava lá, eu precisava entrar. Tirei o dedo da campainha, respirei fundo, preciso encarar esse bando de gente. Vamos lá, força! Não custa nada Lola, sua roupa está perfeita, seu cabelo no lugar. Ih, melhor dar uma olhada na maquiagem outra vez, cadê o espelhinho? Passa mais batom. Agora entra. Não. Tá, agora vai.
Já estavam cantando parabéns. A vontade que me deu de sair correndo do apartamento do Alex foi enorme quando li, bem no centro da sala, uma faixa colorida que dizia, bem grande, FELIZ ANIVERSARIO LUX. Não acreditei nos meus olhos. Eu ajudei a planejar a festa da LUX? O Alê jogou muito sujo cara, porque ele sabia que se eu soubesse que era aniversário daquela garota eu não ajudaria. Fingido! Fiquei no canto da sala esperando acabar o burburinho, muito sem graça de cumprimentar os convidados na hora em que todas as atenções estavam voltadas para a aniversariante. A maioria das pessoas ali sabem que a Lux e eu não nos bicamos, por isso preferi me fazer invisível pra evitar comentários. Sem contar que todo e qualquer clima de feliz aniversário me deixa bastante desconfortável.
Odeio aniversários do fundo do meu coração. Nos meus álbuns de família, estou com a boca escancarada a chorar em TODAS as fotos. Nas dos meus aniversários e nas dos outros parentes. Não sei quando começou esse trauma de aniversário, mas está comigo desde muito cedo. Enquanto me encolhia para não ter minha presença notada, tirei o celular do bolso. O truque de olhar o celular quando se está deslocado em alguma situação social é muito óbvio, porém reconfortante. Pra minha surpresa, havia umas 6 ligações perdidas, vindas do mesmo número, e uma mensagem.
- Porque você não me atende? Preciso MUITO (sim, o muito estava em caixa alta) falar com você. Por favor, não faz assim. Henrique.
Meu coração gelou. Não era nele em quem eu estava querendo pensar. Naquele momento, precisava me esforçar pra socializar discretamente quando o povo dispersasse. Concentra, Lola, concentra! Os pêlos na minha nuca arrepiaram, senti um certo enjôo, uma vontade de sair dali, mas minhas pernas não obedeciam. Procurando não pensar nos espasmos que a mensagem do Henrique estavam causando no meu corpo, olhei pra mesa onde todos se reuniam pra parabenizar a Lux. Ela estava diferente. Ria, abraçava as pessoas, se divertia com os presentinhos. Por um momento ela parecia uma menininha. Há de se dar crédito pra quem consegue deixar a criança interna escapulir assim. Resolvi, num ímperto, que o melhor a fazer era ir até à mesa.
- Oi, Lux. Feliz aniversário!
A facilidade que tenho em me colocar em situações constrangedoras é irmã gêmea da minha fobia social. Ela também simpatiza bastante com o meu trauma de aniversários.
No vácuo de alguns nano segundos que precederam a resposta da Lux, ouvi um bipe vindo do meu bolso. Ainda bem que a bateria do celular acabou.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário